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Era uma noite fria em Brasília e me preparava para ir a minha primeira festa junina do ano. Sabemos que no fim de meio elas começam a se multiplicar por todo o lugar e eu pareço viajar no tempo sentido o cheiro de "traque", de milho e de quentão. As bandeirinhas, sejam de plátisco, folha de revistas, ou jornal velho dão brilho na noite onde amigos se encontram para comer e conversar.
Pelo frio, decidi colocar um jaqueta. E fui dirijindo pelo "eixinho", uma avenida de trânsito rápido que não possui semáforos em praticamente todo o seu trajeto. Mas de longe avistei um grupo de 20 homens que cruzavam a avenida e eles pareciam sinalizar para que eu parasse o carro. Meu coração acelerou e junto com ele eu também acelerei. O homens andavam a passos lentos, despreocupados e xingavam que passava de carro. Pensei: sequestro? Assalto? Não havia semáforo, não havia faixa de pedestre... o que ele queriam? Na dúvida, acelerei.
Quando passei por um deles que estava próximo a calçada, ele cuspiu no carro e o cuspe pegou um minha jaqueta... menos mal, se não tivesse pegado nela, teria pegado em meu braço. Mas foi como se ele tivesse cuspido na minha cara. O que leva alguém a cuspir em outra pessoa sem uma motivo aparente? O que leva alguém a cuspir em um cidadão de bem que sentia apenas medo da violência? O mundo está de cabeça para baixo... lembrei do caso da menina Isabela, lembrei do jovem morto a tiros em São Paulo devido a uma pequena batida no trânsito e lembrei do homem agredido no Rio com uma barra de ferro porque reclamou de outro motorista.
A violência atinge o cidadão de bem, e a violência vem pela falta de compreensão, paciência e, principalmente, humanidade. Cuspiram em mim por cumprir a lei de trânsito, cupiram em mim por nada...
O meu medo é que aquele que cospe por nada, um dia possa vir a matar por nada e a violência se reproduz num ciclo cada vez mais desumano.
criado por Aurélio Araújo
21:30:02