Around The World...

Diário de Bordo da aventura que virou a minha vida de viajante, voluntário, fotógrafo e professor, sempre recheado de muita história e informação. Bem vindo a essa jornada!

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Terra Blog

Arquivo de: Dezembro 2007

05.12.07

De volta a Capital

 

Após 3 semanas vivendo na savana, retornei à urbanização (pensei em dizer civilização, mas quem disse que o mundo urbano é civilizado?). Supostamente eu deveria retornar na sexta-feira, mas devido a um princípio de conjutivite meu retorno foi antecipado para a quinta. O caminho de volta foi um pouco estranho, já acostumado com o silêncio apenas quebrado pelo canto dos pássaros, me vi novamente no vai-e-vem da capital moçambicana. Sobre a tal da conjutivite já estou bem, fui atendido e medicado em uma clínica no centro da cidade, mas foi só depois, quando retornei ao meu velho quarto no bairro da Machava, que percebi o quanto tinha saudades de Maputo...

A cidade das acácias, nascida pela força da exploração colonial (naquela época ainda chamada de Lourenço Marques), hoje cresceu e se tornou senhora. A mistura da arquitetura colonial portuguesa com o dia-dia da vida africana se mistura em suas ruas, becos e saídas. O lixo enfeita cidade, calçadas esburacadas, o mercado informal toma conta das esquinas. E é por essa cidade, banhada pela Costa do Sol e vigiada pela península de Catembe que eu me encantei. E foi em Catembe que fui encantado... é que de Catembe se vê Maputo, assim como de Niterói se vê o Rio de Janeiro... uma visão que dá a falsa imprensão do desenvovimento maqueado pelos arranha-céus.

E melhor é que ainda sim podemos andar em Maputo sosegados, basta abrir o olho na baixa da cidade, no resto é só tranquilidade. E como uma boa capital Maputo não para, de segunda a segunda temos o que fazer... e foi desse fazer que senti mais falta. Terça-feira é no Gil Vicente, quarta no Africa Bar, quinta no Xima, sexta Coconutts, sábado no bar da Estação Central com seu encantador "African Jazz" e domingo a gente relaxa na praia da Costa do Sol de dia e noite curte um rock no Núcleo de Arte. Segui o roteiro e não parei. Não parei por que estou de partida, não parei por que precisava me despedir. E quando parei, me vi lendo um livro no alto de um prédio estiloso na beira de um piscina. Segunda voltei para minha pacata na savana, na comunidade de Changalane, estava pronto para minha última semana de trabalho na África


E em Maputo tudo parece acontecer na medida certa...

03.12.07

Esmola é piada

 

Eram por volta das 4 horas da tarde, quando os membros do juri liam as notas alcaçandas pelos alunos nas suas apresentações para a banca. Ao final da leitura se deu a informaçao oficial: eles agora podiam se chamarem bachareis em aducação, especializados na formaçao de professores primários.

A alegria era óbvia, incontida. Cantos em changana e em outras linguas maternas não paravam de serem entoados. Fotos, sorrisos e abraços. E eu tive meus primeiros alunos formados em uma universidade... e não é qualquer universidade. É uma universidade africana! Em um país onde menos de 0,5% da população possui nível superior e onde o governo, para alcançar as metas do milênio em 2015 precisa contratar de imediato cerca de 50.000 professores, assistir o bacharelado desses 25 estudantes foi uma grande emoção.

Foram 3 longas semanas onde auxiliei com suporte pedagógico essas 25 almas para a elaboração de seus relatórios finais após 9 meses de pesquisa e ação em escolas primárias espalhadas por todo o Moçambique... trabalhamos das 8 da manhã às 10 da noite. No stop! Dores na coluna, dores no pescoço, mas e daí? Foi para isso mesmo que eu vim! Se você acha que as escolas públicas no Brasil são ruim, o que você pensa de um país onde 52% da população é analfabeta e onde a média de aluno por professor em sala é de 1 para cada 75?

Diretamente ajudei 25. Parece pouco, mas isso tem um impacto direto na melhoria da educação aqui. Pela demanda, todos eles já estão contratados e terão, nos Institutos de Formação de Professores cerca de 30 alunos. Cada um dos alunos lecionará, após a formação, lecionará para cerca de 25 crianças. Isso significa que colaborei indiretamente na formação de 750 professores primários (que terão instrutores preparados nos vários desafios encontrados nas escolas urbanas e rurais moçambicanas) e cerca de 18.000 crianças que serão assistidas por esses professores. É o que eu chamo de radiação positiva. Mais formadores de qualidade, significa mais professores qualificados, melhor educaçao para os jovens. E não preciso dizer que educação é a saída... o resultado desse processo é profundo e de sucesso, isso é desenvolvimento. "Bolsa Família" sem educação é esmola e esmola não melhora a vida de ninguém.

Se queremos ajudar esse mundo a se tornar um lugar melhor, tomemos atitudes inteligentes, capazes de trazer uma real melhoria na vida daqueles que precisam... e aqui vai uma sugestão: em vez de doar dinheiro, doe seu tempo: seja voluntário! Se não tem tempo, ajude com idéias, mobilize pessoas pela internet, escreva artigos, defenda uma causa. Mas achar que porque você deu aquele trocado que estava no seu bolso para a criança na rua você fez uma boa ação, isso é patético. Quer ajudar a criança? Encaminhe o menor para a Vara da Infância, para um abrigo, para uma instituição competente. Denuncie o pai por obrigar ou deixar seu filho na rua. Mudar o mundo precisa de ações sérias de gente séria, e sobre a esmola... isso é piada!

Viva os professores de Moçambique, viva os professores do mundo!